Navio Negreiro vira musical e ecoa racismo atual em Natal

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No palco, o mar não é paisagem, é travessia, memória e denúncia. Nos dias 6 e 7 de abril, o palco do Teatro Alberto Maranhão (TAM), em Natal, recebe o espetáculo musical Navio Negreiro, com duas sessões diárias, às 9h e às 14h. Uma releitura cênica do poema homônimo de Castro Alves, transformando a palavra escrita em corpo, música e imagem para revisitar uma das páginas mais violentas da história brasileira.

A proposta parte de um grupo de artistas da chamada “melhor idade”, reunidos em um retiro criativo que, sob a condução de um diretor teatral, decide encenar o clássico abolicionista. A escolha não se limita à adaptação de um texto literário: a montagem investe em uma abordagem lúdica e musical para tensionar passado e presente, conectando o tráfico transatlântico de africanos escravizados às formas contemporâneas de violência, racismo e desigualdade.

Escrito no século XIX, o poema de Castro Alves é reconhecido como uma das mais contundentes denúncias da escravidão. Na encenação, essa força é mantida como eixo central. A narrativa percorre o contraste entre a aparente tranquilidade do mar e a brutalidade dos porões dos navios, onde pessoas eram submetidas a condições desumanas durante a travessia até o Brasil. A montagem busca preservar esse impacto, ao mesmo tempo em que amplia o alcance do texto ao estabelecer paralelos com o presente.

A metáfora do navio, segundo a proposta do espetáculo, atravessa o tempo para discutir também a violência nas periferias urbanas, o racismo estrutural e as disputas por identidade e resistência do povo negro. A estética musical, com composições originais e canções de domínio público, funciona como fio condutor dessa narrativa, alternando momentos de lirismo e tensão.

Com duração de uma hora, o espetáculo é estruturado no formato de teatro à italiana, com encenação frontal. O elenco reúne nomes com mais de três décadas de experiência nas artes cênicas, entre eles Cida Lobo, Edinho Oliveira, Eliene Albuquerque, Sônia Castelo Branco e Melk Freitas, além da participação especial de Fafá Fialho.

A direção geral, cenografia, figurinos, iluminação e produção artística são assinadas por Clenor Jr., enquanto a direção musical é de Edinho Oliveira. As composições e arranjos também são divididos entre Oliveira e Cida Lobo, que conduzem a trilha do espetáculo, composta por 16 números musicais.

Entre as canções, estão títulos como “Máquina de Moer Gente”, “Corpo Acorrentado” e “Negras Mulheres”, que dialogam diretamente com os temas da montagem. A presença de músicas de domínio público reforça o caráter coletivo e histórico da narrativa.

Produzido pela Ribalta Produções em parceria com a Cia Monicreques, o espetáculo integra ainda ações voltadas ao público escolar, com a proposta de ampliar o debate sobre escravidão, memória e desigualdade racial para além do espaço teatral.

Ao trazer Navio Negreiro para o palco, a montagem reafirma a atualidade de um texto escrito há mais de um século. A poesia de Castro Alves, marcada pela denúncia e pela indignação, ressurge em cena como instrumento de reflexão sobre um país que ainda convive com as marcas profundas da escravidão.

Fonte: saibamais.jor.br

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