Não consigo superar o luto de você

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Pensei em começar esse texto pedindo desculpas por estar falando de você mais uma vez. Mas por que me desculpar pela saudade?

Entre os povos negros, indígenas e ciganos, a memória é a forma de manter alguém vivo. Quando lembramos de alguém com carinho, por todo o amor e exemplo que ela trouxe para as nossas vidas, essa pessoa, de fato, vira um ancestral. O senhor se ancestralizou. Encantou-se.

Ah, painho, tem dias que são mais difíceis que outros. Sinto sua falta o tempo todo. Desde o momento em que preciso tomar uma decisão importante e gostaria de ouvir seus conselhos, até sobre as coisas corriqueiras do nosso dia a dia, como acordar e sentir, de longe, o cheiro gostoso do café fresquinho, sentar à mesa, desvirar a caneca e descobrir ali embaixo um ovo cozido e já descascado.

Em uma das últimas vezes que lhe visitei na UTI, disse baixinho no seu ouvido: “o senhor foi o meu primeiro e grande amor” e ainda o é. Foi meu melhor amigo, meu confidente para todos os assuntos, até os mais delicados. Sempre tinha as melhores ideias e soluções, e eu sempre me pegava pensando: “como é que eu não pensei nisso?”

Sempre te vi como um herói, o homem mais bonito, forte, corajoso e respeitável do mundo. Esses dias, comentei com Gigi como eu ficava boba, escorada na parede do banheiro, vendo o senhor fazer a barba enquanto cantava Nelson Gonçalves, e eu pensava: “por que ele não vira cantor?” Em outros momentos, relatei que ficava sentada no chão do banheiro observando seu banho esmiuçado de virginiano, e meu único pensamento era: “que bumbum lindo”.

Eu te admirava tanto que, por alguns momentos, esqueci da sua humanidade. Não percebi quando o senhor estava com saudade de mainha e a falta que ela fazia em nossas vidas. Não percebi seu medo de nos deixar quando tantas doenças lhe acometeram. Não compreendi sua irritabilidade com tantos remédios e restrições alimentares. Desculpa…

Sei que o senhor está por perto, mas que falta faz seu abraço. Alguns dias, preciso fazer um esforço gigante para encontrar razões para continuar por aqui. Desde a sua partida, nada mais parece fazer sentido: nem livros publicados, nem homenagens, nada. Eu trocaria tudo isso por poder ouvi-lo recitar cordéis e repentes. Trocaria tudo isso por um abraço e o “cheiro do gato”.

Disseram que isso, em algum momento, ia passar. Disseram que, com o tempo, ficaria mais fácil, mas esse dia não chega.

Uma vez, eu lhe disse que, quantas vidas eu tivesse, queria voltar sempre como sua filha. Não sei se ainda concordo com isso… Não quero mais voltar. Todos os dias, peço a Orunmilá: “não me deixa voltar, não”. Eu não vou conseguir lhe perder de novo, painho. Não vou.

Escrever isso aqui não vai lhe trazer de volta, mas pelo menos é uma forma de expurgar a dor e aliviar a saudade.

Fique comigo. Eu ainda não sei como fazer isso sem você…

Ana Paula Campos (Lua Callin)- Indígena Potyguara, Cigana Calon, mãe atípica, candomblecista e juremeira, Professora da rede pública, escritora, pesquisadora orgânica, bailarina e cartomante.

Fonte: saibamais.jor.br

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